sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Por que me chamo Maranganha?

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Para quem não sabe, o termo Maranganha vem de Maranguanha ou Marã'wãya, nome de origem indígena para nomear uma abelha nativa do Seridó e do Cariri, chamada também de inxu, inxui, capuxu, jandaíra etc. Segundo os causos contados pelo meu falecido avô Antônio Medeiros Costa, meus antepassados moravam na comunidade da Vaca Brava, entre Acari e Florânia, a caminho de São Vicente, e receberam a alcunha de Maranganha pelo fato de fazerem muita zuada e se irritarem muito fácil, o que era característica da abelha nativa. Segundo meu avô, nenhum deles gostava de ser chamado assim.

Lembrando que meu avô, era, até seu falecimento em 2007, a maior memória viva em Acari-RN (posto hoje ocupado por Jesus de Miúdo), ele mesmo me disse que havia três versões. A primeira é a que quem primeiro recebeu esse apelido foram os filhos de Antônio Pereira do Salgado, filho de Tomás Araújo, o Terceiro. Alguns dos filhos deste teriam a fala gutural arrastada, quase um fanho, parecida com um maribondo de ferrão que já naquela época começava a rarear (primeira metade do século XIX). Quando viajei para Florânia tive um primeiro contato com essa abelha, e um segundo contato em Santana dos Matos-RN. Realmente é uma abelha muito rara, pois não pude avistar sua "casa", contentando-me apenas com um contato visual de longe (é um animal muito desconfiado), mostrada pelos moradores das fazendas que visitava quando moleque. Dizem que há delas ainda em Caicó e Jucurutu, mas especificamente na Quixaba dos Nogueiras. Não sei exatamente onde fica isso, mas com certeza meu pai deve saber, perguntem a ele.

Voltando... Meu avô me deu ainda uma segunda versão (a mais aceita na família, é claro) que ele mesmo ouvira sobre Manoel de Araújo Pereira. Ele era o descendente direto de Tomaz de Araújo Pereira, o Segundo. Ele teria morrido ao tentar tirar do oco de uma árvore o mel das abelhas chamadas na região de Maranganhas, sendo encontrado pelo filho, que comeu todo o mel antes de dar notícia da morte do pai, originando assim o apelido da família.

O nome da abelha, assim, teria apelidado a minha família, depois que Manoel de Araújo Pereira faleceu no mato tirando mel. Usando um machado, teria partido o tronco, mas o mesmo, mal aberto, fechou-se sobre esse meu antepassado, prendendo-o fatalmente, somente localizado no dia seguinte pelos filhos – Manoel de Araújo Pereira Júnior, Madalena Fernandes de Medeiros, Félix de Araújo Pereira (segundo meu avô, deste poderia ter surgido a tradição dos Félix Maranganha, do qual sou o sétimo na seqüência), Maria Suzana da Anunciação, José Martins e Antonio – quando avistaram os urubus fazendo ronda ao longe.

Não lembro da terceira versão, mas sabe-se que pelo menos quatro clãs levam o crédito dos Maranganhas na região: Brito, Medeiros, Araújo e Pereira, desses todos, porém, os Medeiros e os Brito são os que ainda mantêm o maior contigente. De acordo com os dados tirados da entrevista com meu avô três anos antes de seu falecimento, e confirmada por tios e primos meus, a origem do nome concorda lastimavelmente com a morte de um avoengo antecessor, corroborando com a versâo mais aceita na família.


(Imagem 1: Brasão dos Maranganhas por Félix Maranganha.
Imagem 2: reunião familiar dos netos de Antônio Medeiros Costa, eu ali no meio de camisa listrada.
Imagem 3: Brasão dos Medeiros)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O poeta da lira torta

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"a zebra
é a edição
extra

de um cavalo
que virou
notícia"
(Poema a zebra, de Sérgio de Castro Pinto)

Mantenho o contato com grandes escritores e poetas. Alguns começaram agora, e desde já antevejo seu potencial futuro em suas poucas letras. Outros já são consagrados, conhecidos mundo a fora e bem vistos pela crítica. Estranhamente, a maioria dos escritores iniciais pensam que são deuses da escrita, enquanto a maior parte dos veteranos são simpáticos, boa gente e não vomitam conhecimento o tempo todo. Gente de escrita ruim incomoda-se com a presença dos que sabem mais do que eles. Gente de letra boa os prefere. Entre os veteranos, orgulho-me em dizer que não somente conheço pessoalmente pessoas como Sérgio de Castro Pinto, Amador Ribeiro Neto, Jairo Cézar, Chico César, Beto Quirino, André Ricardo Aguiar e Arturo Gouveia, como já dividi mesa de bar com alguns deles. Sérgio, claro, velho conhecido de bares, cigarros e conversas.

Conheci o poeta quando era ainda vestibulando. No alto dos meus 17 anos, convidado por um amigo, fui levado como ouvinte silencioso a uma aula sua. Claro que odiei a aula, mas quando comecei a pesquisar, me espantei com a quantidade e a qualidade de poemas que eu nunca havia lido. Eu odiava poesia na época, mas seu estilo me fez me interessar um pouco mais pela leitura. Fiz vestibular para letras. E em meados do ano 2000, quem me deu aulas de Literatura Brasileira III? Isso mesmo! Sérgio de Castro Pinto. Continuo odiando suas aulas [risos], mas sua lira é incontestável. Tão boa praça ele é que até levou na esportiva pilhérias com seu nome, como só um poeta conhecedor do valor das palavras sabe fazer. Foi nesse ano que li um livro completo seu pela primeira vez, O cerco da memória. Esse livro logo me empurrou a conhecer outros poetas e, no curso de letras, a me tornar mais eclético quanto à literatura, bastando-me ter qualidade. E o que dizer de quando, em Agosto de 2009, ele me presenteou com dois de seus livros? Quando O cristal dos verões (brilhantemente resenhado por Bráulio Tavares aqui) e Zôo imaginário chegou em minha casa, com uma singela carta do poeta e uma dedicatória que até hoje tento decifrar a letra, mal pude conter a expectativa de lê-los.

Sérgio de Castro Pinto é marcado por poemas curtos e imagens poéticas secas e ásperas, cujas palavras, em vez de adocicar a lírica, vem tratá-la a pancadas. A musa não é uma bela dama formosa, mas a mulher de um bandido, que gosta de apanhar. Seus conceitos são arrancados do cotidiano a ferro e brasa. Dor, perversão, inocência, boemia e otimismo conseguem compartilhar das mesmas palavras nos mesmos poemas, com a concisão de um carrasco e a beleza de uma revoada de arribaçãs.

De fato, os textos de Sérgio de Castro Pinto são polissêmicos, a ponto de cada um deles ter a capacidade de significar qualquer coisa e, mesmo assim, terem lógica e sentido naquilo em que significam. A união entre significado e significante proposta pelo gênero lírico acontece e, ao mesmo tempo, desacontece. São poemas de estrutura sintática simples, com poucas assonâncias, poucas aliterações, poemas amusicais e, mesmo assim, com uma complexidade semântica que me impressiona a cada livro seu.

O poema Andorinha, andorinha expõe de cara duas significações, como todo poema conciso deve ser.
a andorinha anda
breve e mínima,

tão confusa e cheia
de ser fusa
ou semicolcheia

na pauta dos fios
de eletricidade,

que já chilreia
em alta voltagem.

Por causa de poemas como esse, gostei particularmente do Zôo imaginário. Com ilustrações do artista plástico paraibano Flávio Tavares, a inocência infantil cruza o mundo dos adultos ao mostrar nesses versos não somente o lado humano dos animais, como também o lado animal dos homens. Não falo aqui do velho clichê zoomórfico ao qual dedicamos sempre parte de nossos arquétipos, mas por algo que só vi repetir-se na poesia brasileira contemporânea em poemas como O mistério do amor, de José Paulo Paes. Seu livro Olha o bicho segue uma linha um pouco diferente da de Sérgio, mas com estrutura semelhante.

Tomando elementos do mundo animal como motivo poético, Paulo Paes recria igualmente o modo como vemos os bichos, mas ele o faz para adultos-crianças, no sentido de recolocar os adultos no modo infantil de ver o mundo, ficando assim um pouco adolescente. Castro Pinto faz crianças-adultos, jogando o modo infantil de ver na no mundo dos adultos. Ambas são visões de artistas que, decodificam o objeto (os bichos). não da forma convencional à qual estamos acostumados, mas que o descontrói, como um infante querendo saber como funciona o conceito da coisa. Depois as pessoas não entendem quando digo que meu ego nunca mais desceu das nuvens depois de Sérgio ter elogiado meus textos.

É uma leitura que não apenas recomendo. Não ler Sérgio de Castro Pinto é tornar-se um leitor incompleto.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Educar é Preciso, Viver também é Preciso

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"Há certas coisas cuja mediocridade é insuportável:
a poesia, a música, a pintura e os discursos públicos".
La Bruyère, Das Obras do espírito, 7a

Para sua maior comodidade (e irritação!!) não serei medíocre a ponto de usar termos moderninhos só para mostrar que conheço os teóricos da educação. Usarei os termos tradicionais para as fases do ensino, uma vez que, por mais que o nome tenha mudado, a estrutura seja idêntica à original. Dessa forma, se Fundamental II e Ginásio só têm de diferente o nome, utilizarei o mais fácil de ser pronunciado, lido e escrito: Ginásio. O mesmo servirá para a Pré-Escola, o Primário, e o Liceu.

Temos hoje no Brasil uma situação bastante esquisita: a maior parte dos jovens universitários atinge o nível universitário como analfabetos funcionais, ou seja, esses jovens lêem o texto, pois aprenderam a identificar letras e frases, mas não conseguem associar ideias, não conseguem decodificá-lo. O problema também abrange a escrita, pois os jovens têm também dificuldades de colocar seus pensamentos no papel e organizá-las de forma a garantir com que pelo menos suas opiniões sejam eternizadas. Mas, por quê? Num país que vem investindo em educação há mais de 30 anos, o que deu de errado? Estaremos daqui a uns anos vendo universitários assinarem seus diplomas com o polegar direito?


Já fui professor, e sei das dificuldades em sala de aula, quando me deparava com alunos de sétima série que não sabiam ler nem escrever um traço sequer, ou quando dava aulas no médio para alunos que não sabiam escrever uma frase curta sem cometer no mínimo 10 desvios em relação à norma padrão. Já vi situações que fariam qualquer idealista da educação dos cursos de Pedagogia ficar de cabelo em pé. A causa disso? Os próprios idealistas da educação.

Dizem que ideias que não são postas em prática são apenas ideias. Eu até mudo a frase: ideias postas em prática sem o mínimo de cuidado são apenas ideias. Muitas vezes, quando estudava letras, e quando me deparava com professores de Prática de Ensino e Avaliação de Aprendizagem, eu ouvia sempre o discurso em monotom que dizia que "o professor deve dar o máximo de si para que os alunos possam aprender". O problema é que os professores não dão o máximo de si por igual, causando desequilíbrio e sobrando para os professores sérios. Isso porque os professores do Primário, imbuídos de ideias do curso de Pedagogia, vivem as coisas muito na teoria, mas, na prática, estão mesmo é preocupadas com a política educacional da escola em que trabalham e em obedecer o coordenador para não perder o emprego. A escola, por sua vez, tem o rabo preso com as secretarias de educação espalhadas pelo Brasil, que têm o péssimo hábito de serem assumidas por quem nunca foi professor ou, quando muito, um professor que péssima reputação.

O problema incide tembém sobre outras secretarias, quando não colocam um engenheiro para a Secretaria de Infraestrutura, ou quando não põem um médico na Secretaria da Saúde. Já cheguei a ver o disparate, em várias cidades e até mesmo em estados inteiros, de colocarem um homem que estudou até a sexta série apenas como secretário de Educação e Cultura. Falhas assim devem ser concertadas, e só o serão se o povo tiver também direito de decisão, ao lado dos governantes, sobre quem comporá as secretarias. Por que secretários e políticos não apresentam corrículos? Mas o assunto aqui não é política, é educação.

Por causa dos problemas supracitados, um aluno sai do Primário para o Ginásio não sabendo muita coisa, simplesmente porque o sistema educacional é pessimamente estruturado. O aluno atinge o ginásio sem conhecimentos que devia ter nessa fase, pois as escolas deixam de usar alguns recursos que seriam bastante úteis, mas que demandaria tempo para pensar a respeito. Posso parecer um chato, mas reprovação, dependência, assistente social, psicólogo, psicopedagogo, avaliação individual por uma junta, pais que compreendam o papel do professor e políticas e métodos pedagógicos eficientes são medidas simples que podem ajudar muito. O problema é que só reprovamos para dar ao aluno a sensação de que ele é ainda mais incapaz, a dependência não deu certo por causa de políticas locais, psicólogos, assistentes sociais e psicopedagogos sairiam um tiquinho de nada mais caro para o estado, e por aí vai. Mesmo que implantassem o sistema de créditos, seria tão mal aplicado que traria mais problemas que soluções.

Resultado: o aluno não é bem formado por uma fase, e sobrecarrega a próxima, que não consegue dar conta das deficiências e acaba por transferir para a fase seguinte os problemas desse aluno. Um aluno sai do Primário com problemas sérios na redação de um texto, sobrecarregando o professor de português do Ginásio que não dá conta, e transfere parte do trabalho para o professor de redação do Liceu, que faz algo voltado para o vestibular, e o aluno acaba levando a dificuldade para a universidade. Na universidade, parte desses alunos faz pedagogia, sabendo ler muito mal e escrever pior ainda, e termina por voltar como professores de educação infantil e do primário, não sabendo avaliar o texto de um aluno por não saberem escrever direito.


Mas, claro, o buraco é mais embaixo, e daria pano para discussões ainda mais longas, como a ausência dos pais na educação dos filhos, cursos de pedagogia voltados somente para a educação infantil, visão da escola apenas como mais uma fonte de votos, cultura fragmentada que gera adolescentes ainda mais problemáticos e a falta de uma disposição do governo em educar o jovem enquanto ainda é tempo. Resumindo, todos querem soluções mágicas, mas transferem todas as responsabilidades para o professor, que não dá conta de ser pai, mãe, psicólogo, sociólogo, assistente social, antropólogo, policial, pedagogo e monge, como ainda tem de passar o conteúdo.

Portanto, critiquem seu professor, mas pense a respeito antes, pois às vezes sua crítica pode ser uma injustiça, ocultando os verdadeiros culpados nessa história toda. A mediocridade pode não estar necessariamente nele.
Contagem a partir de Março de 2009.